Racismo

 

           Sou moreno, filho de pai negro e mãe de ascendência italiana e índia. Casado com mulher branca, meu filho tem a pele clara mas também um orgulho verdadeiro do sangue negro e índio que corre em suas veias.

           Dia desses, vendo na televisão mais um caso de racismo exacerbado, a barbárie perpetrada por dois indivíduos contra um cidadão negro em uma praça de São Paulo, perguntou-me se eu mesmo já fui algum dia vítima de racismo. Respondi-lhe que não, pois não sou  racista. Ponderou que eu não tinha entendido a pergunta. Disse-lhe que entendi perfeitamente, mas que, não obstante a consequência física e moral que pessoas vitimadas por racistas sofram, os autores destas insanidades também carregam um sofrimento muito grande.

           Antes que meu filho começasse a achar que estou ficando maluco, expliquei quão  terrível deve ser para  uma pessoa treinada desde o nascimento a odiar pessoas simplesmente por causa de sua cor, e que sempre teve a convicção de que é superior apenas por ser branco. Tento imaginar como deve ser o dia dessa pessoa, que vê que na prática não existe esta superioridade. Seja nos esportes, nas artes, no meio empresarial, em todos os segmentos da sociedade, enfim, vemos negros e asiáticos se destacando. Na sociedade brasileira, a comunidade indígena pouco se destaca, não por incapacidade intelectual ou qualquer fator inferiorizante, mas devido ter sua vida tutelada pelo Estado, que os trata, os índios, como crianças sem condições de viver a própria vida de maneira autônoma. Os indígenas da América do Norte, que não recebem tratamento similar do governo americano, têm-se destacado no mundo dos negócios, e hoje são os maiores  donos de cassinos do mundo.

           O racismo atual é fruto de simples condicionamento, uma vez que a própria ciência e  o pragmatismo encarregaram-se de fazer ruir os alicerces que historicamente o sustentavam. Hoje, o estudo do genoma mostrou de forma clara o que eu intuí a vida inteira: – entre nós não existe, cientificamente falando, raças. Somos todos representantes da grande “raça humana”, possivelmente descendentes do bobagento macaco bonobo (particularmente eu preferia descender do chimpanzé, mas não temos escolha).

           Observo que diante de qualquer manifestação racista, a única reação das pessoas é também odiar o agressor. Tudo bem, o racismo em si é a coisa mais abjeta da nossa sociedade, e como tal causa-nos asco e rejeição imediata. Mas sinto que a questão é mais profunda, e o ciclo se perpetuará se a sociedade não se envolver muito além da indignação inicial. É preciso procurar conhecer a raíz do problema, e certamente ela não está necessariamente encerrada no racista, mas transcendendo a sua pessoa e sua família.

           Como disse o grande poeta, Carlos Drummond de Andrade, “amar se aprende amando”. Infelizmente, o inverso é verdadeiro, e muitas pessoas ainda aprendem desde o berço a odiar e desprezar os outros.          

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