Democracia encolhida, por Patrus Ananias

                         Sabemos que nossa democracia enfrenta hoje, dentre outros, o gravíssimo problema da corrupção associada ao uso abusivo do dinheiro nos processos eleitorais.
                        Mas o antídoto contra a compra de votos e a manipulação da consciência dos eleitores pela propaganda eleitoral é a crescente compreensão das pessoas sobre as suas responsabilidades políticas; é a presença dos militantes que participam ativamente da vida pública e comunitária sem visar ganhos ou cargos de poder.
                        Neste sentido, a democracia que nós queremos, reflexiva e participativa, deve estimular o engajamento individual e coletivo em torno das causas que dizem respeito a todos nós. Os responsáveis pelo Estado Democrático de Direito devem criar as condições que possibilitem a expansão dos espaços de liberdade e escolhas. Assim, os processos eleitorais devem estimular as reflexões e debates sobre os desafios postos à sociedade e aperfeiçoamento das práticas democráticas.
                       Entretanto, no Brasil, estamos vivendo o oposto: a dissociação eleitoral da dinâmica democrática. Constato, nesse quadro de pré-eleições municipais, que os possíveis candidatos a cargos eletivos só podem abrir o diálogo e o debate com as pessoas e a sociedade depois de formalizadas as candidaturas nas convenções partidárias, que ocorrem geralmente cerca de três meses antes das eleições.
                       Por que não possibilitar e, mais do que isso, estimular que os candidatos possam buscar apoios e votos legítimos em encontros, reuniões e assembleias que constituem a base da democracia? Por que esse cerceamento da liberdade de expressão e essa hipocrisia pretensamente moralista que só serve aos que bem sabem transgredir as normas?
                      Quando me elegi prefeito de Belo Horizonte, em 1992, fizemos uma campanha de quase um ano. Foi uma esplêndida jornada cívica. Lançamos a pré-candidatura no dia 10 de dezembro de 1991; as prévias partidárias realizaram-se em março ou abril do ano seguinte e logo em seguida colocamos a campanha nas ruas. Percorremos a cidade inteira, conversamos com todos os segmentos da população e moradores de todos os bairros e vilas.
                      Agora não seria possível. Tudo tem de ser camuflado, debaixo de pré-candidaturas encolhidas, ocultas. É um estímulo aos conluios e conchavos.
                      Democracia se faz com transparência e à luz do dia. Resgatemos a beleza e a força cidadã das campanhas eleitorais fundadas nas convicções e nos projetos. Queremos as ruas e as praças ocupadas por militantes conscientes e não por pessoas entristecidas, quase sempre jovens, remuneradas para ficarem balançando pobres bandeiras como se fossem estátuas, em monótonos e repetidos movimentos. Queremos a liberdade de pensar e conversar com as pessoas sobre o nosso destino comum.

 

(Patrus Ananias, in: Jornal Hoje Em Dia, edição de 31/05/2012, Belo Horizonte/MG)

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Gilmar não é o Supremo

Gilmar não é o Supremo – Mauro Santayana.
Engana-se o Sr. Gilmar Mendes, quando denuncia uma articulação conspiratória contra o Supremo Tribunal Federal, nas suspeitas correntes de que ele, Gilmar, se encontra envolvido nas penumbrosas relações do Senador Demóstenes Torres com o crime organizado em Goiás.
A articulação conspiratória contra o Supremo partiu de Fernando Henrique Cardoso, quando indicou o seu nome para o mais alto tribunal da República ao Senado Federal, e usou de todo o rolo compressor do Poder Executivo, a fim de obter a aprovação. Registre-se que houve 15 manifestações contrárias, a mais elevada rejeição em votações para o STF nos anais do Senado. Com todo o respeito pelos títulos acadêmicos que o candidato ostentava – e não eram tão numerosos, nem tão importantes assim – o Sr. Gilmar Mendes não trazia, de sua experiência de vida, recomendações maiores.
Servira ao Sr. Fernando Collor, na Secretaria da Presidência, e talvez não tenha tido tempo, ou interesse, de advertir o Presidente das previsíveis dificuldades que viriam do comportamento de auxiliares como P.C. Farias.
Afastado do Planalto durante o mandato de Itamar, o Sr. Gilmar Mendes a ele retornou, como Advogado Geral da União de Fernando Henrique Cardoso.
Com a aposentadoria do ministro Néri da Silveira, Fernando Henrique o levou ao Supremo. No mesmo dia em que foi sabatinado, o jurista Dalmo Dallari advertiu que, se Gilmar chegasse ao Supremo, estariam “correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional”.
Pelo que estamos vendo, Dallari tinha toda a razão. Gilmar, como advogado geral da União – e o fato é conhecido –, recomendara aos agentes do Poder Executivo não cumprirem determinadas ordens judiciais. Como alguém que não respeita as decisões da justiça pode integrar o mais alto tribunal do país? Basta isso para concluir que Fernando Henrique, ao nomear o Sr. Gilmar Mendes, demonstrou o seu desprezo pelo STF. O Supremo, pela maioria de seus membros, deveria ter o poder de veto em casos semelhantes. Esse comportamento de desrespeito – vale lembrar – ocorreu também quando o Sr. Francisco Rezek renunciou ao cargo de Ministro do Supremo, a fim de se tornar Ministro de Relações Exteriores, e voltou ao alto tribunal, re-indicado pelo próprio Collor. O episódio, tal como a posterior indicação de Gilmar, trouxe constrangimento à República. Ressalve-se que os conhecimentos jurídicos de Rezek, na opinião dos especialistas, são muito maiores do que os de Gilmar. Mas se Rezek não servia como chanceler, por que deveria voltar ao cargo de juiz a que renunciara? São atos como esses, praticados pelo Poder Executivo, que atentam contra a soberania da Justiça, encarnada pelo alto tribunal.
A nação deve ignorar o esperneio do Sr. Gilmar Mendes. Ele busca a confusão, talvez com o propósito de desviar a atenção do país das revelações da CPI. O Congresso não se deve intimidar pela arrogância do Ministro, e levar a CPMI às últimas consequências; o STF deve julgar, como se espera, o processo conhecido como mensalão, como está previsto. Acima dos três personagens envolvidos na conversa estranha que só o Sr. Mendes confirma, lembremos o aviso latino, de que testis unus, testis nullus, está a Nação, em sua perenidade. Está o povo, em seus direitos. Está a República, em suas instituições.
O Sr. Gilmar Mendes não é o Supremo, ainda que dele faça parte. E se sua presença naquele tribunal for danosa à estabilidade republicana – sempre lembrando a forte advertência de Dallari – cabe ao Tribunal, em sua soberania, agir na defesa clara da Constituição, tomando todas as medidas exigidas. Para lembrar um autor alemão, Carl Schmitt, que Gilmar deve conhecer bem, soberano é aquele que pratica o ato necessário.

(Werner@SAGGIO_2), in: Jornal Hoje Em Dia, edição de 31/05/2012, Belo Horizonte/MG)

OPINIÃO

O que se depreende deste imbróglio todo é que ninguém é santo nesta história. O texto de Werner é bastante elucidativo acerca da personalidade de Gilmar Mendes, que se  notabilizou muito por seus posicionamentos no mínimo suspeitos face a julgamentos  de processos de  pessoas graúdas, justificando o seu manto protetor com a tese de um legalismo arraigado, o que não se verifica em relação a pessoas de menos posses e fama.

Quase tudo o que o Sr Werner expôs é digno do meu aplauso, pois reflete a verdade dos fatos. Todavia, discordo veementemente quando nos conclama a “ignorar o esperneio do Sr Gilmar Mendes”. Mesmo que se considere o ministro pessoa de pouca credibilidade, o que certamente divide opiniões, há que se apurar tudo, pois o ente público, seja ele o presidente da república, policial, ministro, militar, servidor de carreira ou não dos poderes, etc., mais do que ser honesto, tem que provar e parecer honesto. Chega de varrer para debaixo do  tapete toda a sujeira que ocorre nos bastidores da República, de se procurar subterfúgios mesquinhos, e ao fim, celebrar a impunidade. Acusar genericamente a imprensa  é demasiado leviano, devemos sim, procurar separar o joio do trigo, não condenar antecipadamente, mas nunca fazer de conta que não há algo de podre no ‘reino do Brasil’.

Lembrando, ainda, que os canalhas que tungam e emporcalham a nossa nação estão tão encastelados no poder político-econômico, que a única maneira de  fazer chegar a eles as garras da justiça é quando eles mesmos se implodem, como no presente caso, através de suas disputas internas, interesses não atendidos, traições, ciúmes, etc.

Gilmar Mendes acusa Lula de ajudar ‘bandidos’

Lula e Gilmar Mendes2

“Il Cappo di tutti cappi”

Um dia depois de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negar em uma nota de apenas 184 palavras ter feito pressão sobre ministros do Supremo Tribunal Federal para adiar o mensalão, o ministro Gilmar Mendes acusou o petista de irradiador da ‘central de divulgação’ de boatos montada para minar o STF e abafar o julgamento dos mensaleiros.
Em 19 minutos de entrevista, Gilmar Mendes afirmou que ‘gângsteres’ e ‘bandidos’ tentam ‘melar’ o julgamento do mensalão. O ministro afirmou que o ex-presidente era a central de divulgação de informações, segundo ele, falsas, de que teria recebido favores do esquema comandado pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
‘Chantagistas, bandidos, desrespeitosos’, repetiu o ministro, com o tom de voz alterado, durante entrevista na tarde de terça na entrada da sessão de julgamentos da 2.ª Turma do STF. Segundo ele, o objetivo do grupo de ‘gângsteres’ era atrapalhar o julgamento do mensalão por meio da divulgação de informações mentirosas de que a Corte estaria envolvida em corrupção.
O ministro afirmou que os ‘bandidos’ também tentaram fazer isso com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que é o responsável pela acusação contra os réus do mensalão. Segundo ele, Lula seria a central das informações. ‘Eu acho que ele está sobreonerado com isso. Quer dizer, estão exigindo dele uma tarefa de Sísifo.’
Mendes disse que o STF tem de julgar agora o processo aberto em 2007 contra suspeitos de envolvimento no principal escândalo de corrupção do governo Lula. ‘Por que eu defendo o julgamento (em breve)? Porque nós vamos ficar desmoralizados se não o fizermos. Vão sair dois experientes juízes (Carlos Ayres Britto e Cezar Peluso terão de se aposentar no segundo semestre), virão dois novos, contaminados por uma onda de suspicácia. Por isso que o Supremo tem de julgar neste semestre, tem de julgar logo. E por isso essa pressão para que o tribunal não julgue.’
Indagado sobre o fato de o ex-ministro Nelson Jobim não ter confirmado a suposta tentativa de Lula de intimidá-lo, respondeu: ‘Se eu fosse Juruna eu gravava a conversa, né? Ficaria interessantíssimo. Estou dizendo a vocês o que ocorreu. Posso ter uma interpretação errada, é um relato de uma conversa de quase duas horas. Mas os senhores sabem de uma coisa: eu não tenho a tradição de mentir. Eu posso até interpretar os fatos, mas os senhores não me viram me desmentindo ao longo da minha carreira’, declarou.
(Jornal O Estado de S. Paulo).

Opinião
Nada de novo! Lula negaria até se a inconfidência tivesse ocorrido ao vivo pela televisão em rede nacional. Faz parte do caráter dele julgar-se acima do bem e do mal. E quando as evidências fossem apresentadas, argumentaria que não sabia que tinha dito isso, que a imprensa estava contra ele, que são “branquinhos de olhos  azuis” que não aceitavam o fato de  que um ex-operário inculto foi o maior presidente que o mundo conheceu.
Quanto ao mensalão, estou cético quanto aos resultados práticos do julgamento, se ele ocorrer, pois a aplicação da lei brasileira favorece os bandidos, sobretudo os de colarinho branco.
É aguardar para ver!

Lula e a tentativa de intimidar o STF

Lula e Gilmar Mendes

Na bela manhã de quinta-feira, dia 26 de abril, o ministro do STF Gilmar Mendes saiu de casa para, finalmente, encontrar-se com o ex-presidente Lula — com quem, até essa data, mantinha relações mais que cordiais — no escritório do amigo e ex-ministro Nelson Jobim.

O encontro fora marcado por Jobim, a pedido de Lula. Mas, para Gilmar, o contexto era outro. Há muito, desde a cirurgia de garganta de Lula, ele se sentia devedor de uma visita ao ex-presidente.

O ministro chegou a tratar com Clara Ant, assessora de Lula, sobre a melhor data da visita. Quando estava próxima de realizá-la, Gilmar soube que Lula se internara de novo. Numa conversa com o presidente do Senado, José Sarney, este lhe comunicou que iria visitar o ex-presidente em São Paulo.

— Por favor, diga ao presidente Lula que estou tentando visitá-lo. O senhor bem que poderia me ajudar, marcando isso com ele — pediu Gilmar a Sarney.

Se há uma coisa que político gosta de fazer é mediar encontros.

Quando recebeu o convite de Jobim para encontrar-se com Lula, Gilmar ficou eufórico: finalmente, iria rever o amigo.

Na cabeça do ministro, o encontro seria social e afetivo e realizado por desejos de ambos. E, para ser mais justo, mais pela insistência de Gilmar do que de Lula.

Foi neste contexto que o encontro foi realizado. Convém esclarecer, também, que tudo isso e o que se segue foram reconstruídos seguindo os rastros das conversas que o ministro Gilmar Mendes passou a ter com vários interlocutores sobre o ocorrido.

Coincidentemente, Gilmar, naquele mesmo dia, tinha marcado um encontro com o presidente dos Democratas, o senador Agripino Maia. Maia contaria aos correlegionários que Gilmar chegou ao encontro esbaforido, soltando fogo pelas ventas.

A história espalhou-se logo pelos Três Poderes. Formalmente, Gilmar relatou ao presidente do Supremo, Ayres de Britto. Mas contou ao amigo Sigmaringa Seixas e este, supõe-se, a Dilma.

Pelo contexto relatado acima percebe-se, claramente, que a ação de Lula era totalmente dispensável. Primeiro, a de ter usado Jobim como intermediário. Segundo erro, ao tentar sensibilizar Gilmar para assumir uma posição técnica, não política.

Se o ex-secretário da presidência de Lula e hoje funcionário do seu Instituto, o mineiro Luis Dulci, gostasse de trabalhar, teria preparado um resumo para o ex-presidente sobre as decisões mais importantes tomadas por Gilmar a favor do PT: rejeição da denúncia contra Gushiken: voto a favor de Palloci e recusa de denúncia contra Mercadante, entre outros. Em todos esses episódios, os chamados “ministros amigos” foram todos votos contra o PT. Mercadante, inclusive, nem poderia ter sido eleito senador e, muito menos, estar hoje no ministério da Educação, se tivesse dependido do voto de Sepúlveda Pertence.

Apesar de todas essas posições de Gilmar terem sido eminentemente técnicas, pode se dizer que houve também reciprocidade de Lula no trato com o ministro. Gilmar vai morrer agradecendo a Lula a solução de diversos problemas do Supremo que dependiam administrativamente do governo.

Tanto isso é verdade que, no governo Lula, durante encontro social com um dos ministros, Gilmar Mendes, certa vez, tripudiou:

— Não adianta vocês me enrolarem, eu vou ao meu amigo Lula e ele resolve tudo.

Bem, isso sem contar a relação — e esta é a grande revelação — entre os casais Lula da Silva e Gilmar Mendes. Em todos os aniversários, inclusive no último que passou em Brasília, comemorado só entre os íntimos, Gilmar e sua mulher Guiomar estavam lá. No Torto, no Alvorada e até mesmo no restaurante “Feitiço Mineiro”, o casal Mendes era presença constante. Maria Letícia e Guiomar transformaram-se em grandes amigas.

Por que Lula teria agido assim? Prevalece a máxima do “perdoa, mas não esquece”. Lula não se esquece de que, por espionagem a Gilmar Mendes, numa conversa com o próprio Demóstenes, fora obrigado a demitir Paulo Lacerda da Abin. Lula sentiu-se humilhado, já que a decisão foi resultado de uma delicada conversa sua, na época, com Gilmar, mediada pelo mesmo Jobim.

No encontro fatídico de agora, Lula voltou ao tema de raspão:

— Será que aquele grampo não foi feito pelo próprio Cachoeira ou mesmo Demóstenes ou alguém da turma deles?

Como, a essa altura, a conversa já não estava mais sendo republicana, Gilmar tirou a toga:

— Que é isso, Lula! A prova de que seu governo era uma bagunça está no fato de que o homem de confiança da Abin, o homem de Paulo Lacerda na operação “Satiagraha”, era o Dadá! Você sabia disso?

A coisa esquentou mesmo quando Lula, diante da declaração de Gilmar de que nada tinha a temer da CPI, perguntou-lhe com um tapinha nas costas:

— E a história de Berlim?

Quem diz que tapinha não dói? Doeu mais que a pergunta. O revide foi mais forte:

— Lula, você continua, como sempre, desinformado! Vá em frente!

Foi aí que Gilmar teve a prova definitiva de que tinha sido escolhido pelo PT como símbolo da tentativa de desmoralizar o Judiciário.

O que tem deixado Gilmar Mendes mais indignado é que se considera vítima de um bem articulado plano de difamação que corre não apenas pelas mídias sociais, mas no mais antigo e eficaz meio de comunicação: o terrível boca a boca.

A conversa começou republicana, com Gilmar lembrando a Lula da necessidade de se preencher as próximas duas vagas do Supremo com critérios bem técnicos e não políticos. É que se suspeita de uma manobra para o mensalão ser votado só depois da nomeação dos novos ministros. Gilmar defende o julgamento agora para evitar a confusão e suspeição em que se revestiriam essas nomeações, até porque, sendo em agosto, o tribunal não estaria desfalcado de dois ministros que conhecem bem a matéria como os demais.

O assunto CPI começou quando Lula disse que a tinha sob comando e, numa prova de que estava entre amigos, chegou até a confidenciar ter acertado nomeando Odair Cunha ( PT-MG) como relator:

— O Vaccarezza não seria uma boa solução. O seu poder de articulação é tão grande, que ele acabou se envolvendo com parlamentares comprometidos com esses esquemas.

(Jorge Bastos Moreno, publicada neste domingo (27/5) pelo jornal O Globo.)

Opinião

A cada dia fico mais convencido  de que pagaremos muito caro pelos avanços inquestionáveis da “1ª Era Lula”. Digo 1ª porque, apesar de afirmar o contrário, todo o movimento que o ex-presidente faz no tabuleiro do xadrez político indica a disposição dele em voltar a ocupar  a magistratura máxima da Nação. Se Dilma tiver um projeto próprio e não estiver apenas “esquentando a cadeira” para a volta de seu mentor, está passando da hora de desvincular-se dele, inclusive fazendo-o reconhecer que é um ex-presidente.
Tirando os vários crimes de responsabilidade e mesmo crimes comuns perpetrados por Lula e seus sequazes durante os oito anos  de (des)governo “aloprado”, ele encontrou um cenário propício para dar continuidade a um processo de crescimento que vinha timidamente de governos anteriores, e internacionalmente foi alçado a condição de estrela graças a um bem engendrado plano pessoal de marketing, valendo-se sobretudo da escassez de lideranças realmente de peso que temos observado nos últimos tempos. Ajudou muito  a incompetência do (des)governo FHC, tão elitista e corrupto quanto o sucessor, mas que pecou por negar ao povo menos favorecido até as migalhas que o PT é pródigo em oferecer.
Causa desalento perceber  que, como  um polvo, caçador solitário e  cheio de artimanhas das profundezas oceânicas, Lula tem  lançado seus tentáculos em todas as esferas do poder, maculando justamente aquele que julgávamos um bastião da incorrupção, influenciando e manipulando decisões capitais para a vida nacional e, por que não, para a democracia e soberania do país. Seus defensores dirão que é parte do jogo político; infelizmente tendemos a relativizar tudo, quando deveríamos execrar qualquer tipo de crime, venha ele de onde vier, e de quem vier.
Infelizmente, vivemos sob um império do mal, e a única arma que temos para insurgir  contra ele, o voto, não sabemos usar de forma eficaz e eficiente.

Sabedoria do cacique Juruna

Índio malandro

                O cacique Mário Juruna foi eleito deputado em 1982, pelo PDT carioca, e fez história, de gravador em punho, cobrando promessas e compromissos dos políticos com a causa indígena. Mas, curiosamente, o deputado Mário Juruna não nomeou índios xavantes para a sua assessoria; só escolheu brancos. A um repórter que perguntou o motivo, ele explicou:
               – Branco entende malandragem de branco.

***Texto de Cláudio Humberto, Jornal Hoje Em Dia / BH.

 

 

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Dilma recomenda cautela a Lula

 

               A presidente Dilma Rousseff reuniu-se nesta sexta por duas horas e quarenta minutos na subsede da Presidência, na Avenida Paulista, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para pedir a ele que tenha cautela ao incentivar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira – que investigará laços de políticos e agentes privados com o contraventor Carlos Augusto Ramos, acusado de comandar uma rede de jogos ilegais. A presidente teme que as investigações respinguem em seu governo.

               Ao lado do presidente do PT, Rui Falcão, Lula tem sido um dos principais incentivadores da CPI do Cachoeira. Eles entendem que com a CPI será possível provar que não houve o mensalão – maior escândalo do governo do PT, ocorrido em 2005, em que parlamentares da base aliada votavam a favor de projetos de interesse do Palácio do Planalto em troca de uma remuneração mensal, conforme o relatório da CPI dos Correios.

               Embora não tenha se manifestado publicamente sobre a CPI, há informações de bastidores do governo de que Dilma acha que existe uma possibilidade forte de a CPI prejudicar sua administração. A visão é compartilhada por petistas mais comedidos, que temem a utilização da CPI como palco de vingança política.

               Essa ideia foi reforçada depois da volta de Dilma dos Estados Unidos. Recados do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), e do senador Delcídio Amaral (PT-MS) que chegaram à presidente classificam a CPI como ‘de alto potencial destrutivo’.

             ‘O alcance dessa CPI é inimaginável. Só a empresa Delta Construções (que aparece nas gravações telefônicas feita pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, e recebeu R$ 4,13 bilhões do governo federal por obras do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC) – está presente em quase todo o País, principalmente na construção e reforma de estradas’, disse o senador Delcídio. ‘Eu já fiz vários alertas sobre isso. Estão brincando com fogo’, afirmou ainda o senador petista.

                Delcídio foi o presidente da CPI dos Correios, que apurou o escândalo do mensalão, e sabe que, uma vez em funcionamento, o desdobramento das investigações é algo incontrolável.

                A conversa entre Lula e Dilma teve início às 15h10 e terminou às 17h50. Desta vez, o ex-presidente é que foi se encontrar com Dilma, no gabinete de trabalho da presidente em São Paulo.

                Para auxiliares da presidente, ela quis falar com Lula para demonstrar a preocupação com a CPI e com a agitação política que pode ocorrer no Senado, que ainda tem de votar projetos de interesse do governo. Entre eles, a flexibilização da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o que permitirá a mudança no indexador que corrige as dívidas dos Estados com a União.

                Conforme bastidores do Planalto, a presidente tem recebido as informações sobre a CPI do Cachoeira sem mudar a expressão do rosto. Não faz comentários, apenas ouve. Os que a conhecem bem já conseguem interpretar a reação. Sempre que se mostra impassível, Dilma está dizendo que não gostou do que ouviu.

                 Entre os auxiliares mais próximos, Dilma deixou a impressão de que está aborrecida com a forma como o PT está se comportando em relação à CPI.

                 Primeiro, não concorda que as investigações possam servir para que o partido tente se vingar de uma parte dos meios de comunicação; segundo, acha que a agenda do governo tem caminhos próprios que envolvem acordos com a oposição e não é a mesma do PT; terceiro, não quer paralisar o Congresso.

                 ‘A CPI não tem nenhum objetivo de vingança, de acerto de contas. É um instrumento do Congresso para apurar circunstâncias que envolvam agentes políticos, agentes públicos ou privados’, disse Rui Falcão nesta sexta, em Belo Horizonte.

*** As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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