3 poemas de Casimiro de Abreu

DEUS!
 
Eu me lembro! eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno

E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
“Que pode haver maior que o oceano,
“Ou que seja mais forte do que o vento?!” –

Minha mãe a sorrir olhou p’r’os céus
E respondeu: – Um Ser que nós não vemos
“É maior do que o mar que nós tememos,
“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!” –

RISOS.

Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois… o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!

A vida é triste – quem nega?
– Nem vale a pena dizê-lo.
Deus a parte entre seus dedos
Qual um fio de cabelo!

Como o dia, a nossa vida
Na aurora é – toda venturas,
De tarde – doce tristeza,
De noite – sombras escuras!

A velhice tem gemidos,
– A dor das visões passadas –
A mocidade – queixumes,
Só a infância tem risadas!
———————————–
Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois… o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!

 

O QUE?

Em que cismas, poeta? Que saudades
Te adormecem na mágica fragrância
Das rosas do passado já pendidas?
Nos sonhos d’alma que te lembra?
– A infância!

Que sombra, que fantasma vem banhado
No doce eflúvio dessa quadra linda?
E a mente a folhear os dias idos
Que nome te recorda agora?
– Arinda!
 
Mas se passa essa quadra, fugitiva,
Qual no horizonte solitária vela,
Por que cismar na vida e no passado
E de quem são essas saudades?
– Dela!

E se a virgem viesse agora mesmo
Surgindo bela qual visão de amores
Tu, p’ra saudá-la bem do imo d’alma
Diz-me, poeta – o que escolhias?
– Flores.

E se ela, farta dos aromas doces
Que tem achado nos jardins divinos
Tão caprichosa machucasse as rosas
Diz-me, meu louco, o que mais tinhas?
– Hinos!
 
E se, teimosa, rejeitando a lira,
A fronte virgem para ti pendida,
Dum beijo a paga te pedisse altiva..
O que lhe davas, meu poeta?
– A vida!

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3 sonetos de Antero de Quental

DIVINA COMÉDIA

(Ao Dr. José Falcão)

ERGUENDO os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: -“Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Por que é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N’um turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Por que é que para a dor nos evocastes?”
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: -“Homens! por que é que nos criastes?”

 

TRANSCENDENTALISMO
 
(A J.P. Oliveira Martins)
 

JÁ sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta…

Não é no vasto mundo -por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade –
Que a alma sacia o seu desejo intenso…

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!

 

COM OS MORTOS

Os que amei, onde estão? idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei; vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

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