Leonardo Boff – Corrupção: crime contra a sociedade

14/04/2012

                          Segundo a Transparência Internacional, o Brasil comparece como um dos países mais corruptos do mundo. Sobre 91 analisados, ocupa o 69% lugar. Aqui ela é histórica, foi naturalizada, vale dizer, considerada com um dado natural, é atacada só posteriormente quando já ocorreu e tiver atingido  muitos milhões de reais e goza de ampla impunidade.

                           Os dados são estarrecedores: segundo a Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) anualmente ela representa 84.5 bilhões de reais. Se esse montante fosse aplicado na saúde subiriam em 89% o número de leitos nos hospitais; se na educação, poder-se-iam abrir 16 milhões de novas vagas nas escolas; se na construção civil,  poder-se-iam construir 1,5 milhões de casas.

                            Só estes dados denunciam a gravidade do crime contra a sociedade que a corrupção representa. Se vivessem na China muitos corruptos acabariam na forca por crime contra a economia popular. Todos os dias, mais e mais fatos são denunciados como agora com o contraventor Carlinhos Cachoeira que para garantir seus negócios infiltrou-se corrompendo gente do mundo político, policial e até governamental. Mas não adianta rir nem chorar. Importa compreender este perverso processo criminoso.

                           Comecemos com a palavra corrupção. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original,  expressão que não consta na Bíblia mas foi criada por Santo Agostinho no ano 416 numa troca de cartas com São Jerônimo, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor)  rompido (ruptus) e pervertido. Cita o Gênesis: “a tendência do coração é desviante desde a mais tenra  idade”(8,21). O filósofo Kant fazia a mesma constatação ao dizer:“somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita ao desvio que é a corrupção. Ela não é fatal. Pode ser controlada e superada, senão segue sua tendência.

                           Como se explica a corrupção no Brasil? Identifico três razões básicas entre outras: a histórica, a política e a cultural.

                          A histórica: somos herdeiros de uma perversa herança colonial e escravocrata que marcou nossos hábitos. A colonização e a escravatura são instituições objetivamente violentas e injustas. Então as pessoas para sobreviverem e guardarem a mínima liberdade eram levadas a corromper. Quer dizer: subornar, conseguir favores mediante trocas, peculato (favorecimento ilícito com dinheiro público) ou nepotismo. Essa prática deu  origem ao jeitinho brasileiro, uma forma de navegação dentro de uma sociedade desigual e injusta e à lei de Gerson que é tirar vantagem pessoal de tudo.

                          A política: a base da corrupção política reside no patrimonialismo, na indigente democracia e no capitalismo sem regras. No patrimonialismo não se distingue a esfera pública da privada. As elites trataram a coisa pública como se fosse  sua e organizaram o Estado com estruturas e leis que servissem a seus  interesses sem pensar no bem comum. Há um neopatrimonialismo na atual política que dá vantagens (concessões, médios de comunicação) a apaniguados políticos.

                            Devemos dizer que o capitalismo aqui e no mundo é em sua lógica, corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos  de classe. Por isso, o capitalismo é por natureza antidemocrático, pois  a democracia supõe uma igualdade básica dos cidadãos e direitos garantidos, aqui violados pela cultura capitalista. Se tomarmos tais valores como critérios, devemos dizer que nossa democracia é anêmica, beirando a farsa. Querendo ser representativa, na verdade, representa os interesses das elites dominantes e não os gerais da nação. Isso significa que não temos um Estado de direito consolidado e muito menos um Estado de bem-estar social. Esta situação configura uma corrupção  já estruturada e faz com que ações corruptas campeiem livre e impunemente.

                            A cultural: A cultura dita regras socialmente reconhecidas. Roberto Pompeu de Toledo escreveu em 1994 na Revista Veja: “Hoje sabemos que a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições”. Os corruptos são vistos como espertos e não como criminosos que de fato são. Via de regra podemos dizer:  quanto mais desigual e injusto é um Estado e ainda por cima centralizado e burocratizado como o nosso, mais se cria um caldo cultural que permite e tolera a corrupção.

                            Especialmente nos portadores de poder se manifesta a tendência à corrupção. Bem dizia o católico  Lord Acton (1843-1902): ”o poder  tem a tendência a se corromper e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava:”meu dogma é a geral maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”.

                             Por que isso? Hobbes  no seu Leviatã (1651)  nos acena para uma resposta plausível: “assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”.

                              Lamentavelmente foi o que ocorreu com o PT. Levantou a bandeira da ética e das transformações sociais. Mas ao invés de se apoiar no poder da sociedade civil e dos movimentos e criar uma nova hegemonia, preferiu o caminho curto das alianças e dos acordos com o corrupto poder dominante. Garantiu a governabilidade  a preço de mercantilizar as relações políticas e abandonar a bandeira da ética. Um sonho de gerações foi frustrado. Oxalá  possa ainda ser resgatado.

                              Como combater a corrupção? Tarefa ingente e difícil:  pela transparência total, por uma democracia ativa e participativa pela qual os cidadãos se acostumam a vigiar a aplicação dos dinheiros públicos, por uma justiça isenta e não corruptível,  pelo aumento dos auditores confiáveis que atacam antecipadamente a corrupção. Como nos informa o World Economic Forum, a Dinamarca e a Holanda possuem 100 auditores por 100.000 habitantes; o Brasil apenas, 12.800 quando precisaríamos pelo menos de 160.000. Mas mais que tudo  lutar por um outro tipo de democracia menos desigual e injusta que a persistir como está,  será sempre corrupta, corruptível  e corruptora.

*teólogo, filósofo e escritor, autor de A violência na sociedade capitalista e do mercado, em A Voz do Arco-íris, Rio de Janeiro 2004.

                                                    

                                                      Minha opinião

     Belo texto, muito esclarecedor, deste grande homem, Leonardo Boff. Com muita propriedade, o que lhe é bastante peculiar, discorre sobre as raízes histórica, política e cultural da maior mazela de nosso país, a corrupção, mãe e pai dos piores males que nos afligem. Muitas vezes, em sua visão míope, as pessoas tendem a minimizar a questão da corrupção, achando que ela é um problema menor entre tantos outros com os quais temos que lidar cotidianamente. Só não sabem que, via de regra, tudo de ruim que agride a sociedade tem a corrupção como raiz, é dela que nascem e se desenvolvem com seus frutos malditos.

                                   Deter-me-ei um pouco mais no aspecto cultural do mal, pois acredito que é a face mais emblemática do tema, e grande entrave para a extirpação da corrupção em nosso país. É Triste constatar a verdadeira dicotomia do brasileiro: – de um lado, povo afável e hospitaleiro, alegre e criativo, mas que por outro lado trás a chaga da corrupção em sua essência. E a coisa é tão enraizada, que as pessoas cometem rotineiramente atos reprováveis sem se dar conta do seu mal procedimento. É só observarmos como se comportam na fila do banco, por exemplo. Os ditos espertos sempre vão arrumar um “jeitinho” para furar a fila, seja através de um amigo que trabalha na instituição, seja usando uma criança de colo apenas para burlar a regra  básica que diz que quem chegou primeiro tem primazia no atendimento. Outro exemplo clássico é o sujeito sofrendo fiscalização por parte de algum agente público e, estando indébito, oferece algum dinheiro para ser  liberado. Na ótica enviesada desta pessoa, apenas o agente é corrupto e réprobo, enquanto ela se julga correta e ética, apenas vítima de uma circunstância que a levou a dar dinheiro para livrar-se da sanção do Estado.

                                     Quantas vezes ouvimos pessoas sérias dizendo que votam no candidato “X” mesmo sabendo que ele é um ladrão, ‘só que rouba mas faz’? E outros que dizem  que qualquer um que tivesse a oportunidade de ser eleito, inclusive eles próprios, dariam um jeito de  também se locupletar com o erário?

                                      Mais grave que a falta de exemplo por parte de nossa classe política, é esta ausência de senso moral que está acometendo a grande maioria do povo brasileiro. A mania de achar que  tem “muito jogo de cintura”, que em tudo é possível “dar um jeitinho”, que é sinal de esperteza passar o outro para trás, estes pequenos atos de corrupção que as pessoas praticam no seu dia-a-dia é muito preocupante, pois têm o condão de cegar toda uma sociedade para coisas maiores, e cria uma conivência até imperceptível com os chamados “colarinhos brancos”, bem como interfere no modo como deveriam julgar os políticos na hora de votar.

                                       Outra constatação, é que a corrupção não é “privilégio” dos brasileiros, infelizmente ela existe em todos os lugares. A nosso desfavor o fato de que no Brasil, por estar entranhada na  cultura de parcela significativa do povo, ela não mancha ninguém. Enquanto que nos outros países o político ou empresário que é pilhado num ato de corrupção, fora a punição do Estado que costuma acontecer, ele automaticamente torna-se um pária diante da família, amigos e da sociedade, preferindo alguns até a morte às vezes, no Brasil é comum vermos casos graves de corrupção, roubalheira deslavada mesmo, não serem reprimidos pelo poder do Estado e tampouco reprovados pela sociedade. Por isso que muitos “barões”, depois de desmascarados, continuam mantendo as posses e a pose, rindo  de nossa cara, e não raramente, voltam a ocupar cargos políticos reconduzidos pelos braços do povo que roubaram.

Robson Santos (www.robingalo.wordpress.com)

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